20 de set de 2011

"histórias extraordinárias" ≠ "histoires extraordinaires"

Tais foram os dados que localizei - e creio que de maneira razoavelmente exaustiva - sobre as antologias de contos de Edgar Allan Poe que receberam o nome de Histórias extraordinárias no Brasil.

É evidente que a inspiração inicial para a primeira coletânea a receber este nome entre nós (Cultrix, 1958) foi a seleta que Charles Baudelaire organizou, traduziu e enfeixou sob o título de Histoires extraordinaires.

File:Histoires extraordinaires, 003.jpg

A coletânea organizada por Baudelaire traz treze contos, que relaciono abaixo com as datas da publicação original em inglês entre parênteses:
  • Double Assassinat dans la rue Morgue (1841)
  • La Lettre volée (1844)
  • Le Scarabée d’or (1843)
  • Le Canard au ballon (1844)
  • Aventure sans pareille d’un certain Hans Pfaall (1835)
  • Manuscrit trouvé dans une bouteille (1833)
  • Une Descente dans le Maelstrom (1841)
  • La Vérité sur le cas de M. Valdemar (1845) 
  • Révélation magnétique (1844)
  • Souvenirs de M. Auguste Bedloe (1844)
  • Morella (1835)
  • Ligeia (1838)
  • Metzengerstein (1832)

Qualquer rápida comparação basta para mostrar que nenhuma das antologias brasileiras intituladas Histórias extraordinárias corresponde às Histoires extraordinaires de Baudelaire. A bem dizer, na verdade nenhuma delas sequer se propõe a isso.

Então, a primeira coisa a se fazer é deixar de lado qualquer impulso ou reflexo condicionado de associar Histórias extraordinárias 
a Histoires extraordinaires.

Entendo o nome "Histórias extraordinárias" no Brasil, referindo-se a Edgar Allan Poe, como um título que se aplica a qualquer coletânea que se queira, com qualquer quantidade de contos que se pretenda. É um bom nome, com suas ressonâncias baudelairianas e uma certa consagração difusa, e só: de resto, sendo uma carcaça vazia, funciona como um vale-tudo. 

E justamente porque Histórias extraordinárias não corresponde a Histoires extraordinaires de Baudelaire, e muito menos a qualquer obra específica de Poe, não há nenhuma relação que vincule o título ao conteúdo do livro. Por isso é possível proliferarem tantas antologias diferentes com o mesmo nome.
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mais treze (ou catorze) coletâneas chamadas "histórias extraordinárias"

Apresentei as duas primeiras coletâneas a receber o título de Histórias extraordinárias, a saber, a selecionada e traduzida por José Paulo Pais (Cultrix, 1958) e a selecionada e traduzida por Brenno Silveira (Civilização Brasileira, 1959, rebatizada com esse título em 1970). Há mais treze, a bem dizer catorze antologias publicadas com este mesmo nome no Brasil, entre 1972 e 2011.




Histórias extraordinárias, pretensa tradução de João Teixeira de Paula, Ordibra/MEC (1972), com dezesseis contos: “O poço e o pêndulo”; “O escaravelho de ouro”; “O homem na multidão”; “Berenice”; “Hop Frog”; “William Wilson”; “Silêncio”; “Sombra”; “A carta roubada”; “O gato preto”; “O poder da palavra”; “Pequena discussão com uma múmia”; “O demônio da perversidade”; “O sistema do doutor Breu e do professor Pena”; “Rei peste”; “Duplo assassínio na rua Morgue”.  Traz também “O corvo (a gênese de um poema)”, “Método de composição” e a tradução de O corvo por Machado de Assis.





Histórias extraordinárias, tradução de Pedro Ramires, Cedibra (1972), com oito contos: “O encontro marcado”; “Ligéia”; “O poço e o pêndulo”; “Manuscrito encontrado numa garrafa”; “Descida ao interior do maelström”; “O mistério de Marie Rogêt”; “A carta furtada”; “Sombra — uma parábola”.




Histórias extraordinárias, tradução de Brenno Silveira e outros, Civilização Brasileira (1973) em licença para o Círculo do Livro, com dezessete contos: “A queda da casa de Usher”; “Berenice”; "Os crimes da rua Morgue”; “O escaravelho de ouro”; “O gato negro”; “O barril de amontillado”; “Manuscrito encontrado numa garrafa”; “William Wilson”; “O mistério de Marie Rogêt”; “A carta roubada”; “Metzengerstein”; “O poço e o pêndulo”; “Nunca aposte sua  cabeça com o diabo”; “Uma descida no maelström”; "O duque de l’Omelette”; “O jogador de xadrez de Maelzel”; “A aventura sem paralelo de um tal Hans Pfaall”.




Histórias extraordinárias, tradução de Brenno Silveira e outros, Edibolso (3a. ed., 1975), com onze contos: “A máscara da peste vermelha”; “O enterro prematuro”; “A caixa quadrangular”; “O homem na  multidão”; “William Wilson”; “O poço e o pêndulo”; “A queda da casa de Usher”; “O barril de amontillado”; “O gato preto”; “O coração revelador”; “Berenice”.


Histórias extraordinárias, tradução de Brenno Silveira e outros, Civilização Brasileira (1978) em licença para Abril Cultural, Círculo do Livro, Nova Cultural até 2003, com dezesseis contos: “A queda da casa de Usher”; “O barril de amontilhado”; “O gato preto”; “Berenice”; “Manuscrito encontrado numa garrafa”; “William Wilson”; “Os crimes da rua Morgue”; “O mistério  de Marie Rogêt”; “A carta roubada”; “Metzengerstein”; “Nunca aposte sua cabeça com o diabo”; “O poço e o pêndulo”; “A aventura sem paralelo de um tal Hans Pfaall”; “O escaravelho de ouro”; “Uma descida no maelstrom”; “O jogador de xadrez de Maelzel”.




Histórias extraordinárias, tradução anônima, Otto Pierre (1979), com oito contos: “Os crimes da rua Morgue”; “O mistério de Marie Roget”; “O escaravelho de ouro”; “O sistema do dr. Alcatrão e do prof. Pena”; “A verdade sobre o caso do sr. Valdemar”; “Descida ao maelstrom”; “A carta roubada”; “Metzengerstein”.









Histórias extraordinárias de Allan Poe, seleção e tradução de Clarice Lispector, Ediouro (c. 1985), com dezoito contos: “O gato preto”; “A máscara da morte rubra”; “O caso do Valdemar”; “Manuscrito encontrado numa garrafa”; “Enterro prematuro”; “Os crimes da rua Morgue”; “A queda da casa de Usher”; “Os dentes de Berenice”; “Nunca aposte sua cabeça com o diabo”; “O duque de l’Omelette”; “William Wilson”; “O retrato oval”; “O coração denunciador”; “O diabo no campanário”; “O barril de amontillado”; “Metzengerstein”; “Ligéia”; “Deus (revelação magnética)”.






Histórias extraordinárias, seleção de Carmen Vera Cirne Lima, tradução de Oscar Mendes e Milton Amado, Globo (1987), com treze contos: "O escaravelho de ouro"; "O caso do sr. Valdemar"; "A queda da casa de Usher"; "O barril de Amontillado", "Os crimes da rua Morgue"; "O demônio da perversidade"; "O coração denunciador"; "William Wilson"; "Ligeia", "O gato preto"; "O mistério de Marie Rogêt", "A carta roubada"; "O duque de l'Omelette" (agradeço a Francimar Alves pelas informações referentes ao conteúdo desta edição).




Histórias extraordinárias, pretensa tradução de José Maria Machado, Clube do Livro (1988), com dez contos: “O escaravelho de ouro”; “O  homem na multidão”; “Hop Frog”; “William Wilson”; “Silêncio (uma fábula)”; “Sombra  (uma parábola)”; “Berenice”; “Pequena discussão com uma múmia”; “A carta roubada”; “O sistema do dr. Breu e do professor Pena”.







Histórias extraordinárias, tradução portuguesa de Luísa Feijó e Teixeira de Aguilar, em edição brasileira pela América do Sul (1988), com seis contos: “Os crimes da rua Morgue”; “O escaravelho de ouro”; “O gato negro”; “O barril de amontillado”;  “Manuscrito encontrado numa garrafa”; “Eleonora”.









Histórias extraordinárias, pretensa tradução de Pietro Nassetti, Martin Claret (1999), com sete contos: “O gato preto”; “Manuscrito encontrado em uma garrafa”; “Os crimes da rua Morgue”; “A carta roubada”; “O poço e o pêndulo”; “O escaravelho de ouro”; “A queda da casa de Usher”.








Histórias extraordinárias, tradução de Cláudia Ortiz, Escala/Larousse (2005), com sete contos: “A carta roubada”; “A queda da casa de Usher”; “O gato preto”; “O barril de amontillado”; “A máscara da morte vermelha”; “Hop-frog”; “O escaravelho de ouro”.








Histórias extraordinárias, tradução de Clarice Lispector, Ediouro (2005), com dezoito contos: “O gato preto”; “A máscara da morte rubra”; “O caso do Valdemar”; “Manuscrito encontrado numa garrafa”; “Enterro prematuro”; “Os crimes da rua Morgue”; “A queda da casa de Usher”; “Os dentes de Berenice”; “Nunca aposte sua cabeça com o diabo”; “O duque de l’Omelette”; “William Wilson”; “O retrato oval”; “O coração denunciador”; “O diabo no campanário”; “O barril de amontillado”; “Metzengerstein”; “Ligéia”; “Deus (revelação magnética)”.







Histórias extraordinárias, tradução de Antônio Carlos Vilela, Melhoramentos (2011), com quatro contos: "A máscara da morte vermelha"; "O coração revelador"; "O gato preto", "O retrato oval".

Antes dessa edição, a Melhoramentos havia publicado cada um destes contos em separado, como integrantes da série "Histórias Extraordinárias".

19 de set de 2011

as histórias extraordinárias começam a se espalhar

A segunda coletânea brasileira com o título de Histórias extraordinárias é a de Brenno Silveira. Tem uma história interessante e está na origem de uma bandalheira biobibliográfica que citei em um grotesco arabesco.

Na verdade, inicialmente o conjunto de contos selecionados e traduzidos por Brenno Silveira foi publicado com o título de Antologia de contos de Edgar Allan Poe, pela Civilização Brasileira, em 1959.



Trazia onze contos, a saber:
  • “A queda da casa de Usher”; 
  • “O barril de amontilhado”; 
  • “O gato preto”; 
  • “Berenice”; 
  • “Manuscrito encontrado numa garrafa”;
  • “Os crimes da rua Morgue”; 
  • “O mistério de Marie Rogêt”; 
  • “A carta roubada”; 
  • “Metzengerstein”; 
  • “O Duque de l'Omelette”;
  • “O poço e o pêndulo”. 

Em 1970, a Civilização relança sua coletânea, mas com duas diferenças. A primeira é que passam a ser treze contos: acrescentam-se "William Wilson", em tradução de Berenice Xavier, e "Nunca aposte a cabeça com o diabo", na tradução de Milton Amado e Oscar Mendes, que saíra pela Globo em 1944. A segunda diferença, e mais importante para os destinos de Poe no Brasil, é a mudança do título: a coletânea da Civilização, que até então se chamava Antologia de contos de Edgar Allan Poe, passa a se chamar, a exemplo da edição da Cultrix, Histórias extraordinárias.


É fácil perceber que as Histórias rebatizadas de Brenno pouco têm a ver com as Histórias de José Paulo Paes: não só na quantidade (onze/treze para dezoito), como também na escolha dos contos. Insisto sobre este aspecto, pois se generalizou tanto o uso do mesmo título para antologias diferentes que a grande maioria dos leitores julga que se trata de uma mesma obra, e não raro, ao descobrirem as diferenças, se sentem - com toda razão - um pouco aturdidos.
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a primeira coletânea de histórias extraordinárias

O primeiro volume de contos de Poe a receber o título de Histórias extraordinárias no Brasil foi a seleta organizada e traduzida por José Paulo Paes, pela Cultrix, em 1958. Um bom indicador da parca familiaridade com a obra de Poe entre nós naquela época, apesar do trabalho monumental de Milton Amado e Oscar Mendes em 1944, é a grafia de seu nome na sobrecapa e na capa da edição, que chama tanto mais a atenção se lembrarmos que o editor e tradutor José Paulo Paes tinha uma bagagem literária nada medíocre:




Essa coletânea trazia dezoito contos, a saber:
  • “Coração revelador”; 
  • “O retrato ovalado”; 
  • “O sistema do dr. Alcatrão e do professor Pena”; 
  • “O gato preto”; 
  • “O diabo no campanário”; 
  • “Berenice”; 
  • “Sombra – uma parábola”; 
  • “William Wilson”; 
  • “O caixão quadrangular”; 
  • “A máscara da morte rubra”; 
  • “A queda da casa de Usher”; 
  • “A carta roubada”; 
  • “Ligéia”; 
  • “Pequena palestra com uma múmia”; 
  • “O barril de amontillado”; 
  • “O poço e o pêndulo”; 
  • “O  escaravelho de ouro”; 
  • “O homem da multidão”. 


Esse trabalho de José Paulo Paes pela Cultrix teve algumas reedições, até onde sei nada de muito estrondoso. A coletânea passou a ser reeditada pela editora Companhia das Letras a partir de 2008, em sua coleção de bolso - agora, porém, com um detalhe bizarro, que comentarei mais adiante.




as tantas histórias extraordinárias


              sukamusiru

Assim, passemos ao tema das coletâneas de contos de Poe que levam o título de Histórias extraordinárias. Além das doze arroladas no post anterior, que contêm "O gato preto", existem no Brasil pelo menos mais três:

Histórias extraordinárias, tradução de Pedro Ramires, com oito contos, Cedibra, 1972;
• Histórias extraordinárias, tradução anônima, com oito contos, Otto Pierre, 1979;
Histórias extraordinárias, pretensa tradução de José Maria Machado, com dez contos, Clube do Livro, 1988.

É evidente que quinze coletâneas, contendo de quatro a dezoito contos, abrangendo ao todo 35 contos diferentes, por mais que tragam o mesmo nome de Histórias extraordinárias, não podem corresponder a qualquer coisa previamente existente em qualquer outra língua. Cada uma delas é uma seleção, diferente das demais. Arrolarei a seguir o conteúdo de cada uma delas.
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quais são os livros que trazem the black cat?




The Black Cat, nas traduções que mencionei em post anterior, geralmente encontra-se publicado em antologias. Raros são os casos de edições exclusivamente dedicadas apenas a este conto. Até o momento, localizei a seguinte distribuição de O gato preto em traduções legítimas (isto é, não estão arroladas as cópias e contrafações):

1. Sozinho: 
O gato preto, trad. Bernardo Carvalho, Cosac Naify, 2004;
O gato preto, trad. Antonio Carlos Vilela, Melhoramentos, 2006.

2. Miscelâneas de autores:  
Obras-primas do conto de terror, anônimo, Livraria Martins, 1962;
Os mais extraordinários contos de suspense, trad. Renato Guimarães, Civilização Brasileira, 1978;
Clássicos do conto norte-americano, trad. Celso M. Paciornik, Iluminuras, 2001;
Os melhores contos de medo, horror e morte, trad. Oscar Mendes e Milton Amado, Nova Fronteira, 2005;
Os melhores contos de cães e gatos, trad. Celina Portocarrero, Ediouro, 2007.

3. Coletâneas de Poe:
Novellas extraordinarias, anônimo, H. Garnier, c. 1903;
Contos de Edgard Poe, trad. port. Januário Leite, Annuario do Brasil, 1926;
Ficção completa, poesias & ensaios, trad. Milton Amado e Oscar Mendes, Globo, 1944;
Contos de imaginação e mistério, trad. Aurélio Lacerda, Pinguim, 1947;
O mistério do gato preto, tradução anônima, Tecnoprint, 1954;
O fantasma da rua Morgue, trad. Frederico dos Reis Coutinho, Vecchi, 1954;
Antologia de contos de Edgar Allan Poe, trad. Brenno Silveira, Civilização Brasileira, 1959;
Contos de terror, de mistério e de morte, trad. Oscar Mendes e Milton Amado, José Aguilar, 1975; Nova Fronteira, 1981;
Os crimes da rua Morgue e outras histórias, trad. Aldo della Nina, Saraiva, 1961; reed. como Assassinatos na rua Morgue e outras histórias em 2006;
O gato preto e outras histórias de Allan Poe, trad. Clarice Lispector, Ediouro, c. 1975;
Os 7 de Allan Poe, trad. Clarice Lispector, Ediouro, 1975;
Contos escolhidos, trad. Oscar Mendes e Milton Amado, Globo, 1985;
O escaravelho de ouro e outras histórias, trad. José Rubens Siqueira, Ática, 1993;
Contos do terror, trad. Annunziata de Filippis, Newton Compton, 1995;
Histórias de crime e mistério, trad. Geraldo Galvão Ferraz, Ática, 1998;
Os assassinatos na rua Morgue e outras histórias, trad. William Lagos, L&PM, 2002;
O escaravelho de ouro e Gato negro, trad. Rodrigo Espinosa Cabral, Rideel, 2005;
Contos e Histórias, pretensa tradução de Henry Dualibi, Germape, 2005;
• Contos e Histórias, anônimo, Cedic, 2005;
O gato preto e outras histórias, trad. Ricardo Gouveia, Scipione, 2007;
O gato preto e outros contos, trad. Guilherme Braga, Hedra, 2008;
Contos de terror e mistério, Telma Guimarães, Editora do Brasil, 2008;
Antologia de contos extraordinários, trad. Brenno Silveira, BestSeller, 2010.

4. Histórias extraordinárias: 
Aqui surge um dado que considero muito interessante: a presença do conto O gato preto em diversas antologias com o mesmo nome.
Histórias extraordinárias, seleção e tradução de José Paulo Paes, com dezoito contos, Cultrix, 1958; Companhia das Letras, 2008;
Histórias extraordinárias, seleção e tradução de Brenno Silveira, com treze contos, Civilização Brasileira, 1970;
Histórias extraordinárias, pretensa tradução de João Teixeira de Paula, com dezesseis contos, Ordibra/MEC, 1972;
Histórias extraordinárias, tradução de Brenno Silveira e outros, com dezessete contos, Civilização Brasileira, 1973, licença para o Círculo do Livro;
Histórias extraordinárias de Allan Poe, tradução e adaptação de Clarice Lispector, com dezoito contos, Ediouro (seleta de c. 1975, com esse título desde c. 1985); reed. com o nome Histórias extraordinárias a partir de 2005;
Histórias extraordinárias, tradução do conto atribuída a Luiza Lobo, com onze contos, Edibolso, 1975 (3ª. ed.);
Histórias extraordinárias, tradução de Brenno Silveira e outros, com dezesseis contos, Civilização Brasileira em licença para Abril Cultural, Círculo do Livro, Nova Cultural, de 1978 a 2003;
Histórias extraordinárias, seleção de Carmen Vera Cirne Lima, tradução de Oscar Mendes e Milton Amado, Globo, 1987;
• Histórias extraordinárias, tradução portuguesa de Luísa Feijó e Teixeira de Aguilar, com seis contos, ed. brasileira América do Sul, 1988;
Histórias extraordinárias, pretensa tradução de Pietro Nassetti, com sete contos, Martin Claret, 1999;
Histórias extraordinárias, tradução de Cláudia Ortiz,  com sete contos, Larousse, 2005;
Histórias extraordinárias, tradução de Antônio Carlos Vilela, com quatro contos, Melhoramentos, 2011.
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17 de set de 2011

quais são as traduções brasileiras de the black cat?



outro dia apresentei aqui um cotejo entre a tradução de brenno silveira e a suposta tradução de pietro nassetti para the black cat de edgar allan poe. para dar um pouco de contraste, acrescentei os trechos das traduções de milton amado/oscar mendes e de guilherme braga. como uma coisa leva a outra, isso acabou me despertando a curiosidade: quais seriam outras traduções brasileiras do conto, publicadas em livro?

the black cat no brasil
edgar allan poe escreveu the black cat no final de 1842 ou começo de 1843. o conto foi publicado no saturday evening post, na edição de 19 de agosto de 1843. em 1845, the black cat foi incluído na coletânea tales, publicada por wiley & putnam, nova york.

o conto aparece em sua primeira tradução brasileira em livro no ano de 1944, e tem conhecido várias outras traduções e adaptações ao longo desses 67 anos. arrolo abaixo os nomes dos tradutores e adaptadores, as editoras originais e o ano da primeira edição que consegui localizar até o momento.

a partir do original em inglês:
- oscar mendes e milton amado (globo, 1944);
- aurélio lacerda (pinguim, 1947);
- frederico dos reis coutinho (vecchi, 1954);
- anônimo (tecnoprint, 1954);
- josé paulo paes (cultrix, 1958);
- brenno silveira (civilização brasileira, 1959);
- aldo della nina (saraiva, 1961);
- clarice lispector (tecnoprint/ediouro, 1975);
- renato guimarães (civilização brasileira, 1978);
- josé rubens siqueira (ática, 1993);
- geraldo galvão ferraz (ática, 1998);
- celso mauro paciornik (iluminuras, 2001);
- william lagos (l&pm, 2002);
- bernardo carvalho (cosac naify, 2004);
- rodrigo espinosa cabral (rideel, 2005);
- celina portocarrero (ediouro, 2007);
- ricardo gouveia (scipione, 2007);
- guilherme braga (hedra, 2008);
- telma guimarães (editora do brasil, 2008).

por interposição:
- annunziata capasso de filippis (newton compton, 1995; do italiano, sem indicação);
- cláudia ortiz (escala/larousse, 2005; do francês, com indicação);
- antonio carlos vilela (melhoramentos, 2006; do espanhol, com indicação).

plágios e/ou contrafações:
- anônimo (livro de bolso, 1941)
- joão teixeira de paula (ordibra/mec, 1972);
- pietro nassetti (martin claret, 1999);
- henry dualibi (germape, 2005);
- anônimo (cedic, 2008).
(aqui devo registrar o caso da edibolso, 1975, sob licença da cedibra, que atribui a luiza lobo a tradução de brenno silveira.)

títulos:
as traduções, em sua grande maioria, trazem o título o gato preto. as exceções são:
o mistério do gato preto (tradução anônima, 1954);
- o gato negro (josé rubens siqueira);
gato negro (rodrigo espinosa cabral).
- menciono ainda o gato negro na tradução portuguesa de luísa feijó, que recebeu uma edição brasileira pela ed. américa do sul (1988).

curiosidades: 
- a primeira tradução de the black cat para a língua portuguesa aparentemente é a de mécia mouzinho de albuquerque, por interposição do francês, publicada pela companhia nacional, lisboa, em 1889.
- é esta tradução que julgo que foi publicada pela h. garnier no brasil, em c.1903, como uma anônima "traducção brasileira", como comentei em outros posts.
- o gato preto ganha sua primeira edição brasileira em 1926, pela annuario do brasil, numa coletânea chamada contos de edgard poe, na tradução portuguesa de januário leite, que, até onde sei, é a primeira tradução em língua portuguesa feita diretamente do inglês. este é um caso híbrido que considero interessante, pois, embora portuguesa, essa tradução foi publicada apenas (ou primeiramente) no brasil, provavelmente devido às ligações entre januário leite e álvaro pinto, como comentei antes.
- há também a fascinante notícia do conto publicado em 1920 na revista leitura para todos, ilustrado por oswaldo goeldi, com tradução anônima, que comentei aqui.

conclusão:
até o momento, temos 28 traduções/ adaptações brasileiras de the black cat publicadas em livro, sendo 22 legítimas e 6 plágios e/ou contrafações. sem dúvida é maior o número de edições brasileiras com o conto, visto que algumas delas trazem traduções portuguesas: é o caso da h. garnier, conforme suponho, e certamente da annuario do brasil, da américa do sul e algumas outras que apresentarei mais adiante.

esta é uma reformulação atualizada do post originalmente publicado em 13/06/2009, aqui.
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poe na agência do isbn/ fbn

Agora, digamos que o consulente quer saber o que há cadastrado de Poe em nossa agência do ISBN, da Fundação Biblioteca Nacional. Encontrará o seguinte, que, convenhamos, é um tanto bizarro:
NOME DO AUTOR

ALLAN POE
Edgar Alan Poe
Edgar Allam Poe
Edgar Allan Poe
Edgard Allan Poe
EDGAR ALLAN POE
EDGAR ALLAN POE
EDGAR ALLAN PPOE
EDGAR ALLEN POE
EDGARD ALLAN POE

poe na biblioteca nacional

O pesquisador que quiser ver online o que há de Poe em nossos acervos na Biblioteca Nacional ficará  um pouco perplexo. Se consultar o catálogo antigo, verá os seguintes registros de entrada:

poe, edgar
poe, edgar allan
poe, edgar allan, 1809-1848
poe, edgar allan, 1809-1849
poe, edgar allan, 1809-1949
poe, edgard allan, 1809-1849

Se consultar o catálogo corrente, terá:


   poe, edgar allan
   poe, edgar allan berenice
   poe, edgar allan chevalier auguste dupin y la carta robada
   poe, edgar allan ms. found in a bottle
   poe, edgar allan o corvo
   poe, edgar allan o homem da multidao
   poe, edgar allan tales of terror and mystery
   poe, edgar allan the black cat
   poe, edgar allan the cask of amontillado
   poe, edgar allan the complete tales and poems of edgar allan
   poe, edgar allan the fall of the house of usher
   poe, edgar allan the gold-bug
   poe, edgar allan the imp of the perverse
   poe, edgar allan the murders in the rue morgue
   poe, edgar allan the mystery of marie roget
   poe, edgar allan the oval portrait
   poe, edgar allan the pit and the pendulum
   poe, edgar allan the purloined letter
   poe, edgar allan the purloined letter. portugues
   poe, edgar allan the raven


   poe, edgar allan the the fall of the house of usher
   poe, edgar allan the unparalleled adventure of one hans pfaa
   poe, edgar allan william wilson

o que me parece um tipo de registro absolutamente espantoso e estapafúrdio.

Aliás, se o consulente abrir qualquer deles, clicando, por exemplo, em:

   poe, edgar allan the imp of the perverse

o resultado da consulta será:



Creio que seria importante que nossa Biblioteca Nacional adotasse um padrão um pouco mais coerente e racional em seus registros.
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