31 de out de 2011

a edição mabbott


A edição realmente excepcional da obra de Poe, a cargo de Mabbott, traz notas muito úteis sobre o conto (inédito no Brasil) "Von Kempelen and His Discovery": Tales and Sketches: 1843-1849, vol. 2, ed. Thomas Olive Mabbott, Univ. Illinois Press, 2000,
disponível para visualização parcial no Google Books, aqui.
.

30 de out de 2011

de von kempelen a maelzel

Muitos devem conhecer as reflexões de Walter Benjamin sobre "O conceito de história". A primeira delas se refere ao autômato enxadrista vestido à turca que, levado por seu inventor Von Kempelen, fez a ronda dos palácios, teatros e feiras da Europa, vencendo todas as partidas de xadrez que enfrentava.
Conhecemos a história de um autômato construído de tal modo que podia responder a cada lance de um jogador de xadrez com um contralance, que lhe assegurava a vitória. Um fantoche vestido à turca, com um narguilé na boca, sentava-se diante do tabuleiro, colocado numa grande mesa. Um sistema de espelhos criava a ilusão de que a mesa era totalmente visível, em todos os seus pormenores. Na realidade, um anão corcunda se escondia nela, um mestre no xadrez, que dirigia com cordéis a mão do fantoche. Podemos imaginar uma contrapartida filosófica desse mecanismo. O fantoche chamado “materialismo histórico” ganhará sempre. Ele pode enfrentar qualquer desafio, desde que tome a seu serviço a teologia. Hoje, ela é reconhecidamente pequena e feia e não ousa mostrar-se. (Walter Benjamin, "Sobre o conceito de história", tradução de Sergio Paulo Rouanet.) 
Na verdade, não era bem um anão corcunda, mas excelentes enxadristas contratados por Von Kempelen, que se encolhiam dentro da caixa e, por meio de ímãs, conduziam os movimentos das peças do autômato.



Existe fartíssimo material sobre o invento de Von Kempelen, tido como muitos como o pai do conceito de Inteligência Artificial e por aí afora. Após sua morte em 1804, o autômato enxadrista foi adquirido por Maelzel (aliás, inventor do metrônomo), que levou "o Turco" a excursionar também pelos Estados Unidos. Foi lá que Poe assistiu a uma das demonstrações, em Richmond, e veio a denunciar a mistificação em seu ensaio "O jogador de xadrez de Maelzel". 

Já "Von Kempelen e sua descoberta", o conto humorístico que Poe escreveu treze anos depois, consiste resumidamente na alquimia de transformar uma mistura metálica em ouro, numa satírica referência ao sucesso comercial das apresentações do enxadrista mecânico com seus lances movidos a ímã.


Anos atrás, a SuperInteressante publicou uma simpática introdução à história do enxadrista de Kempelen, "Os truques de um turco", o avô do Deep Blue, como diz seu autor Leandro Sarmatz. Disponível aqui.


von kempelen e o jogador de xadrez



Como se sabe, desde 1944 dispomos de toda a obra de ficção de Poe no Brasil, num trabalho de tradução - que não me canso de classificar como hercúleo - empreendido por Oscar Mendes e Milton Amado e publicado pela Globo em 1944. Opa: quase toda.

O cânone poeano estabelece 69 textos, entre tales e novels, como o total de sua obra literária em prosa, sendo dois deles inacabados e, até onde sei, inéditos no Brasil:

  • The Journal of Julius Rodman, um romance publicado em capítulos entre janeiro e junho de 1840 em Burton's, ao qual Poe não deu continuidade (veja aqui);
  • The Light-House, manuscrito incompleto de 4 páginas, iniciado em 1849 e interrompido pela morte de Poe (veja aqui).

A obra de tradução de OM/MA apresenta 66 textos como totalidade da ficção de Poe. Além dos dois inacabados, que até se entende que não compareçam na edição da Globo, o terceiro faltante - e também ainda inédito entre nós - é o humorístico Von Kempelen and His Discovery, publicado em 1849 em Flag of Our Union (veja aqui). 

Duas considerações. 
- A primeira delas, mais rápida: a constatação dessa ausência na poeana brasileira me fez decidir traduzi-lo. Quando estiver pronto, publicarei aqui. 
- A segunda, de caráter bibliográfico: em minha pesquisa, vi-me levada a incluir entre a prosa de ficção de Poe no Brasil o texto chamado Maelzel's Chess-Player ("O jogador de xadrez de Maelzel", de 1836), porque - por mais uma daquelas inescrutáveis razões editoriais - esse ensaio foi incluído entre as Histórias extraordinárias pela edição do Círculo do Livro de 1973, em tradução de autoria não identificada, e reeditado inúmeras vezes entre os contos de Poe. Não é um conto, evidentemente, mas acabou se integrando à fortuna histórica de Poe literato no Brasil.

Ora, a relação entre esses dois escritos de Poe é que "O jogador de xadrez de Maelzel" fornece a referência literária e também histórica concreta para a sátira "Von Kempelen". Assim, pareceu-me uma coincidência curiosa que nos falte o conto - pequena lacuna na obra de tradução de OM/MA que, no entanto, infelizmente impede-nos de considerá-la completa - e, por outro lado e um tanto insidiosamente, tenhamos o ensaio sobre o autômato de Maelzel publicado como uma "história extraordinária". 

Voltarei a ambos.

atualização em 30/8/2013: ver retificação aqui.


29 de out de 2011

help


Consultei, física e virtualmente, uma quantidade enorme de volumes da prosa de Poe publicados no Brasil. No entanto, algumas antologias estão me deixando desacorçoada. Se alguém souber os dados faltantes e puder me informar, ficarei extremamente agradecida. A primeira coluna de "falta" se refere ao nome do tradutor; a segunda coluna, com menos "faltas", se refere ao nome do(s) conto(s) incluído(s) na coletânea.





Contos aterrorizantes
falta
Leitura XXI
2006
falta
Contos de mistério e morte
falta
Leitura XXI
2003
Histórias para não dormir: dez contos de terror
falta
Novo Continente
2009

Leituras de escritor: Moacyr Scliar
falta
SM
2008
falta
Maravilhas do conto amoroso
falta
Cultrix
1959
Maravilhas do conto fantástico
falta
Cultrix
1958
Maravilhas do conto universal
falta
Cultrix
1957

Obras-primas do conto norte-americano
falta
Martins
1958
Obras-primas do conto policial
falta
Martins
1955

Obs.: vou excluindo os títulos conforme for preenchendo os dados faltantes.



28 de out de 2011

os contos mais traduzidos



Nessa fase de levantamento da ficção de Poe publicada em livro no Brasil, localizei até o momento 502 traduções.
Os campeões disparados na preferência dos leitores (e/ou dos editores) são:

Black Cat, The
34
Purloined Letter, The
32
Murders in the Rue Morgue, The
29
Gold-Bug, The
24
Pit and the Pendulum, The
21

Esses cinco contos - 7,46% dos 67 contos de Poe - respondem por 27,88% das traduções levantadas até agora. 
Para quem se interessar, todos eles estão disponíveis na rede numa ou noutra tradução:

  • O gato preto, aqui
  • A carta roubada, aqui
  • Os crimes da rua Morgue, aqui
  • O escaravelho de ouro, aqui
  • O poço e o pêndulo, aqui

.

27 de out de 2011

invencionices

Aqui, eu tinha ficado de apresentar mais uma bizarrice em relação às Histórias extraordinárias, na seleta organizada e traduzida por José Paulo Paes. Agora elas seriam a tradução de um misterioso original chamado Extraordinary Tales:




cá e lá

Dizem que desgraça compartilhada é meia alegria, ou variantes. Não me convence muito, pelo menos não no seguinte caso: vejo
num meticuloso artigo de Vivina Almeida Carreira que a lambecagem editorial misturando alhos com bugalhos, isto é, Tales of the Grotesque and Arabesque com Histoires Extraordinaires, também foi praticada por nossos amigos lusitanos - e curiosamente no mesmo ano em que a moda foi lançada no Brasil pela Abril Cultural: 1978.

Transcrevo aqui o trechinho pertinente do artigo de Vivina Almeida Carreira, "A paratextualidade na reescrita portuguesa dos contos de Edgar Allan Poe", à p. 129:
1978
Com Depósito Legal desta data sai, com indicação de tradução revista por Luís Nazaré, Histórias Extraordinárias (Lisboa: Amigos do Livro). Contém uma pequena “Introdução”, sem indicação de autor, subdividida em três secções: “O Homem”, “A Obra”, “A Crítica”. É a primeira vez que aparece num paratexto a explicação sobre a designação de Histórias Extraordinárias (3) dada a um conjunto de contos a que Poe chamou Tales of the Grotesque and Arabesque, i. e., porque Baudelaire as traduziu e agrupou em dois volumes sob os títulos de Histoires Extraordinaires e Nouvelles Histoires Extraordinaires.
in Revista Anglo-Saxónica, série III, 1, 2010, Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa, pp. 115-38.

À nota 3, a autora observa: "Embora este volume de Histórias Extraordinárias não inclua exactamente os mesmos contos que Baudelaire incluiu nas suas Histoires Extraordinaires". Apesar da ressalva, cabe notar que no texto principal Vivina A. Carreira
parece aceitar a mirabolante explicação para o título da coletânea.
.

26 de out de 2011

nossas cincadas históricas

E no entanto, como comentei aqui, em 1978 uma infeliz edição da Abril Cultural decreta em prefácio que a coletânea Histórias Extraordinárias (qual? a sua, claro...) corresponderia à coletânea Histoires Extraordinaires de Baudelaire. E, ademais, as Histoires Extraordinaires corresponderiam às Tales of the Grotesque and Arabesque!



Essa indevida remissão adquiriu tais foros de verdade que a própria Ediouro, que havia passado cerca de trinta anos atribuindo a responsabilidade pela organização de suas seletas de Poe a Clarice Lispector,  a partir de 2005 adota a mesma referência, e suas Histórias extraordinárias - cujo conteúdo, aliás, pouco corresponde ao conteúdo licenciado pela Civilização Brasileira e muito menos ao das  TGA - surgem também como tradução de Tales of the Grotesque and Arabesque.

Ou encontra-se a afirmação de um acadêmico: "Ao traduzir Tales of Grotesque and Arabesque para Histoires Extraordinaires, Charles Baudelaire errou duas vezes. A primeira, ao trair a vontade expressa do autor, de que o título de um livro deve mostrar tudo o que contém; e a segunda, por não perceber a enorme riqueza semântica do original".

Ou tem-se ainda a declaração do docente e escritor Charles Kiefer em recente artigo "A poética de Edgar Allan Poe", aqui, de que "Charles Baudelaire encarregou-se dos contos, num trabalho que durou dezesseis anos. Histoires extraordinaires, título que deu a Tales of the grotesque and arabesque, ajudou a divulgar Poe..."

Para além dessas confrangedoras demonstrações da fragilidade da poeana brasileira, a questão interessante é que Poe tinha uma intenção não só comercial, mas também, digamos, conceitual ao compor sua seleta de contos do grotesco e arabesco. Essa questão, solenemente ignorada entre nós, traz aspectos interessantes para os aficionados de Poe, que foram justamente objeto de consideração de seu famoso prefácio às TGA, agora disponível em português: veja aqui e aqui.


uma prévia do prefácio das TGA


Aqui a prévia em (N.T.) Revista Literária em Tradução, n. 3, setembro de 2011.
Disponível aquiaqui.

o prefácio de 1840

Incrivelmente inédito no Brasil até data recente, o famoso prefácio de Tales of the Grotesque and Arabesque foi publicado em tradução minha em (N.T.) Revista Literária em Tradução, n. 3, setembro de 2011. O volume completo da revista está disponível
para download aqui.

Para visitar o belíssimo site de Nota do Tradutor, com este e os números anteriores da (N.T.), veja aqui.