14 de nov de 2011

poe no clube do livro



Esta coletânea de diversos autores, publicada pelo Clube do Livro em 1981, traz "William Wilson" de Poe. É uma edição apócrifa, sem créditos de tradução nem de licenciamento das editoras originais. Trata-se da vetustíssima "traducção brasileira" anônima publicada em 1903 pela H. Garnier, e que creio tratar-se de uma contrafação da tradução portuguesa de Mécia Mousinho de Albuquerque.

Se o Clube do Livro foi um dos grandes divulgadores de contos de Poe entre um público mais amplo no Brasil, com edições baratas e sistema de venda domiciliar, desde 1945 a 1988, com:

  • Novelas extraordinárias (1945)
  • Aventuras de Artur Gordon Pym (1946)
  • Thingum Bob e outros contos (1956)
  • uma pretensa cessão de direitos de tradução para as Histórias extraordinárias da Ordibra (1972)
  • "William Wilson" na coletânea acima (1981)
  • Histórias extraordinárias (1988)

por outro lado foi a editora com maior quantidade de edições espúrias, plágios e contrafações das traduções de Poe em português. Uma pena.
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13 de nov de 2011

von kempelen e eureka

Ficheiro:EurekaTitle.jpg

O destrinçamento de mais alguns fios do parágrafo apresentado no post anterior é bem simpático e nos remete a Eureka, de 1848. Apresento aqui em linhas bem rápidas e sucintas.

George Eveleth, com quem Poe trocou algumas missivas ao longo dos anos, veio a sustentar depois da publicação de Eureka que ele é que teria chegado a algumas ideias expostas na obra, e as teria colocado em circulação antes de Poe. No conto "Von Kempelen e sua descoberta", a pista mais imediata e evidente para a conexão é dada pelo local: Eveleth, como Kissam, morava em Brunswick, no Maine. Kissam, alegando sua precedência na descoberta de Von Kempelen, remete a Eveleth reivindicando para si a autoria de algumas ideias de Poe em Eureka. Por extensão, e ao longo do texto a seguir, é impossível deixar de sentir que Poe, em certos aspectos, se coloca na pele de Von Kempelen. Voltarei ao tema.

Quanto a Draper, citado no final do parágrafo, cientista famoso e professor da Universidade de Nova York, era um desafeto de Poe. Por isso sua alfinetada ao tratá-lo como um tolo caindo feito um patinho na história de Kissam.

É interessante a correspondência entre Poe e Eveleth, que pode ser vista aqui, em especial a carta deste último àquele, datada de 17 de fevereiro de 1849, também citando algumas notícias e contatos com Draper. Eveleth, sinceramente, parecia um chato de galochas.

atualização: até reproduzo abaixo essa carta dele a Poe, muito instrutiva, a meu ver.


I have just arisen from a somewhat hasty perusal of “Eureka.” I will not be so impious as to offer an opinion of it, founded on such a perusal. I shall read it again, and with care.
I was gratified at coming upon the idea with regard to the origin of the rotation of the heavenly bodies, because it coincided with the one which I had given upon the same point. I gave it on my own authority, never having seen, to my recollection, any thing of the like elsewhere. Nevertheless, it may have been advanced hundreds of times — It seemed to me one of the “self-evident truths,” like those upon which Aries Tottlel based his arguments. Do I understand you to give this idea as only your own way of accounting for the rotation or is it that also of Laplace?
I inclose you the bit in which is my expression of it. It is but a bit, I know, still I would like to have you notice it so far as to tell me what you think of it — that is, at your leisure. I wrote it some two or three months ago, and offered it for insertion in Silliman’s American Journal. It is not yet time for its appearance, if it does appear at all — probably it will not. I forwarded it to Prof. Draper, of your city, without an invitation to him for a comment upon it, making no mention at all of it. He did me the honor to say thus of it: —
“I have read with pleasure your enclosed on the igneous condition of the if Earth, and hope you will still continue to turn your thoughts to such interesting philosophical topics.”
From Prof. Draper I received this also: —
“I send you two Introductory Lectures” (one upon Phosphorus, the other upon Oxygen gas) — “the various fugitive pieces I have written have never been collected, nor indeed do they deserve it. — Mr. Poe was Editor of the Messenger (Southern Literary) a part of the time when I wrote those reviews for it. — I have not any personal acquaintance with him, and do not know what is his prospect with the magazine you refer to. From the circumstance that it is very rarely mentioned here, I should doubt its success.”
I have yet faith to believe that I shall see, and pass many a pleasant hour in perusing, something called “The Stylus” — What is your faith with respect to it.
I think you are the Autobiographer of Holden’s Dollar Magazine — And I guess this same wobegone personage could now look in the glass and point out one Joe Bottom, Editor of his posthumous papers.
Have not you some proprietary right in Holden’s?
I have not seen the “Fable for the Critics,” yet have read occasional extracts from it. These are very Poe — etical, so much so that I would not have been afraid to venture a trifle that they were the productions of said Poe, if I had not heard the work generally attributed to Lowell. I am half inclined now to question this verdict.
The “Rationale of Verse” bas not yet appeared, has it?
Have you written a poem entitled Ullahana which is to appear in an early number of the Stylus?
If you get the Stylus upon its route before the end of the next three months, send me a specimen of it hither to Brunswick,6 will you not? I expect to tarry here during that time. I am attending the Medical Lectures. .I may thereby have a chance to introduce a copy or two of the Maga. to the good people of this place — perhaps to the students or Professors of the College.
By the way, haven’t you an essay upon some topic, prepared for your Magazine, a proof-sheet of which you would do well to send me to deliver as a lecture before the College-students? Of course, I should give it as not mine.
Shall I not hear from you soon?
You may judge that this epistle has been written in a hurry not only by the blots discoverable, but from various other data.
Yours truly Geo. W. Eveleth. Brunswick, Maine, Feb. 17. — /49.




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12 de nov de 2011

problemas e deslindes












Prosseguindo na tradução de "Von Kempelen e sua descoberta", o parágrafo seguinte é este, divertido à primeira vista, de uma complexidade bastante bizarra quando desmontado:
O parágrafo do Courier and Enquirer, que agora está circulando por toda a imprensa, e que pretende atribuir a invenção a um tal sr. Kissam, de Brunswick, no Maine, parece-me, devo confessar, um pouco apócrifo, por diversas razões; embora não haja nada de impossível ou demasiado improvável na afirmativa feita, não preciso entrar em detalhes. Minha opinião sobre o parágrafo se baseia sobretudo em seu estilo. Ele não parece verídico. As pessoas, quando narram fatos, raramente são tão detalhistas quanto parece ser o sr. Kissam, em relação ao dia, à data e ao local exato. Além disso, se o sr. Kissam realmente chegou à descoberta conforme afirma, na época indicada – quase oito anos atrás –, como é que ele não deu nenhum passo, de imediato, para colher os imensos benefícios que o mais tolo néscio haveria de saber que resultariam para si, se não para o mundo em geral? Parece-me absolutamente inacreditável que qualquer homem de entendimento mediano fosse capaz de descobrir o que diz o sr. Kissam ter descoberto, e no entanto, depois disso, tivesse se comportado feito um bebê – feito uma toupeira –, como ele mesmo admite. Aliás, quem é o sr. Kissam? E não será o parágrafo inteiro no Courier and Enquirer uma invencionice para “dar o que falar”? É preciso admitir que tem o ar de uma tremenda fraude. Merece pouquíssima confiança, em minha humilde opinião; e, não soubesse eu por experiência própria a facilidade com que os cientistas caem vítimas de mistificações em assuntos fora de seus campos de pesquisa usuais, ficaria profundamente surpreso ao ver um químico tão eminente quanto o professor Draper discutindo com tanta gravidade as pretensões do sr. Kissam (ou será Quizzem?) à descoberta.   
Quanto à tradução: so like an owl - pensei muito... like an owl é usado para várias coisas: solitário, soturno, briguento, agressivo, macambúzio, manhoso, triste, birrento... mas também "cego": blind as an owl. "Toupeira" não ficou muito bonito nem me satisfez muito, mas por ora acho que é o que mais se aproxima do sentido nessa passagem (no sentido em que dizemos "cego feito uma toupeira", pois o que seria "feito uma coruja" ou "um mocho" para nós?). Bom, a ver...

A dificuldade central é a frase em destaque: já comentei bastante os hoaxes da época, veiculados sobretudo na imprensa. O mais famoso deles foi um longo artigo publicado em seis partes na última semana de agosto de 1835, no jornal New York Sun. Veja aqui, inclusive com a íntegra do artigo. Foi apresentado como reprodução do Suplemento do Edinburg Journal of Science, com as "Grandes Descobertas Astronômicas Feitas Recentemente por Sir John Herschel". Sir John Herschel existia, claro: era nada menos que o famoso astrônomo inglês, que no artigo de sua própria pretensa lavra apresentava várias descobertas, a principal delas sendo a existência de vida na Lua. Com um suposto telescópio de grande potência, ele teria visto florestas, mares, pirâmides, casas e habitantes lunares, dando descrições minuciosas de seus hábitos.


Muitos leitores acreditaram na farsa montada por Richard Adams Locke, o autor da invencionice. Foi um escândalo, claro, e a história ficou famosíssima, conhecida até hoje como "The Great Moon Hoax". Edgar Allan Poe achou aquilo muito interessante, e até chegou a escrever em 1846 um ensaio biográfico sobre Locke em sua série "The Literati of NewYork City".

Richard Adams Locke

Assim, nessa passagem acima de "Von Kempelen e sua descoberta", quando o jornalista-narrador comenta a respeito do artigo sobre o sr. Kissam: It must be confessed that it has an amazingly moon-hoax-y air, trata-se de uma referência clara ao moon hoax de Locke, muito familiar a seus leitores.

Mas aí está o busílis. Como transpor uma referência popular dos anos 1835-50 na costa leste americana para leitores brasileiros dos anos 2010? Comentei em outro post que se fala muito hoje em dia que a chegada do homem à Lua, nos anos 1960, também teria sido um gigantesco embuste: mais uma "fraude lunar" ou "falsa alunagem". Mas não é uma expressão que evoque de pronto todo esse conjunto de características que formam um hoax. Por ora estou me resignando a uma simplificação não muito desejável: É preciso admitir que tem o ar de uma tremenda fraude. A menos que eu desdobre o "moon": É preciso admitir que tem o ar de uma tremenda fraude, como a existência de vida na lua.  

De mais a mais, e ainda que Poe também pretendesse que seu escrito, por sua vez, também passasse por verídico, ele colocou algumas pistas internas indicando ao leitor o que de fato era: uma brincadeira com elementos pseudocientíficos, com ares de plausibilidade invocando referências a personalidades científicas da época, feita expressamente para ludibriar o leitor. Uma delas é precisamente essa menção ao ar escalafobético do artigo comentado pelo narrador. A outra é a menção à credulidade dos cientistas diante de mistificações; ainda neste parágrafo, o trocadilho de Kissam com Quizzem. A intenção de Poe era que as três pistas, num jogo de metarreferências, se aplicassem a seu próprio escrito.

No destrinçamento deste mesmo parágrafo, há ainda outros fios, um pouco mais longos e que, creio, interessariam apenas aos mais aficionados. Tendo ocasião, voltarei a eles mais adiante.

imagens: aqui
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5 de nov de 2011

os parágrafos iniciais

AFTER the very minute and elaborate paper by Arago, to say nothing of the summary in “Silliman’s Journal,” with the detailed statement just published by Lieutenant Maury, it will not be supposed, of course, that in offering a few hurried remarks in reference to Von Kempelen’s discovery, I have any design to look at the subject in a scientific point of view. My object is simply, in the first place, to say a few words of Von Kempelen himself (with whom, some years ago, I had the honor of a slight personal acquaintance,) since every thing which concerns him must necessarily, at this moment, be of interest; and, in the second place, to look in a general way, and speculatively, at the results of the discovery. 
It may be as well, however, to premise the cursory observations which I have to offer, by denying, very decidedly, what seems to be a general impression (gleaned, as usual in a case of this kind, from the newspapers,) viz.: that this discovery, astounding as it unquestionably is, is unanticipated. 
By reference to the “Diary of Sir Humphrey Davy,” (Cottle and Munroe, London, pp. 150,) it will be seen at pp. 53 and 82, that this illustrious chemist had not only conceived the idea now in question, but had actually made no inconsiderable progress,experimentally, in the very identical analysis now so triumphantly brought to an issue by Von Kempelen, who although he makes not the slightest allusion to it, is, without doubt (I say it unhesitatingly, and can prove it, if required,) indebted to the “Diary” for at least the first hint of his own undertaking. Although a ­[page 103:] little technical, I cannot refrain from appending two passages from the “Diary,” with one of Sir Humphrey’s equations. [As we have not the algebraic signs necessary, and as the “Diary” is to be found at the Athenæum Library, we omit here a small portion of Mr. Poe’s manuscript. — ED.]
            Após o artigo muito minucioso e elaborado de Arago, para não citar o resumo no Silliman’s Journal, com a detalhada apresentação recém-publicada pelo Tenente Maury, naturalmente ninguém haverá de supor que, ao oferecer alguns comentários apressados sobre a descoberta de Von Kempelen, eu tenha qualquer intenção de examinar o tema de um ponto de vista científico. Meu objetivo é simplesmente, em primeiro lugar, dizer algumas palavras sobre o próprio Von Kempelen (com quem, alguns anos atrás, tive a honra de travar um rápido contato pessoal), visto que, neste momento, tudo o que se refere a ele é de interesse obrigatório; e, em segundo lugar, examinar de modo geral e especulativo os resultados da descoberta.
            Mas, já de antemão, pode-se calçar as observações superficiais que tenho a oferecer, negando decididamente o que parece ser uma impressão geral (respigada, como costuma acontecer em casos assim, dos jornais), a saber, que esta descoberta, por assombrosa que inegavelmente seja, tenha sido inesperada.
            Consultando-se o Diário de sir Humphrey Davy (Cottle and Munroe, Londres, 150 pp.), vê-se às páginas 53 e 82 que este ilustre químico não só concebera a ideia agora em questão, mas na verdade havia feito um progresso não insignificante, experimentalmente, na mesma análise idêntica ora levada a cabo de maneira tão triunfal por Von Kempelen, o qual, ainda que não lhe faça a mais remota alusão, está, sem dúvida (digo isso sem hesitações e posso prová-lo, se necessário for), em dívida com o Diário, pelo menos quanto à primeira sugestão para seu empreendimento pessoal. Embora um pouco técnicas, não posso me abster de anexar duas passagens do Diário, com uma das equações de sir Humphrey. [Como não dispomos dos sinais algébricos necessários, e como o Diário há de se encontrar na Athenaeum Library, omitimos aqui um pequeno trecho do manuscrito do sr. Poe – N.E.]
Caberiam aqui alguns comentários: a linguagem formal e ao mesmo tempo comicamente empolada, cheia de itálicos, parênteses, interpolações e várias subordinadas, entre a profusão de personagens verídicos e um diário inventado. A nota do editor, que poderia ser tomado pelo editor de Flag of Our Union, onde foi publicado o conto, na verdade é do próprio Poe. Fica muito divertida com esse ar de improviso e precariedade do jornal, remetendo sumariamente os leitores à biblioteca local - ao mesmo tempo, como recurso literário, aparentando ser uma nota do editor real, reforça a verossimilhança, duplicando a ilusão de que o conto é uma matéria jornalística (pois esta é a graça da coisa, justamente), e poupa ao autor a necessidade de criar as tais equações.

O conto foi publicado em 14 de abril de 1849 em The Flag of Our Union (abaixo, foto de um número de 1854), um semanário bastante medíocre de Boston. Segundo a Edgar Allan Poe Society of Baltimore, aqui, Poe se sentia um tanto envergonhado em publicar sua obra nas páginas do The Flag, mas era um dos poucos jornais que aceitavam textos seus, e um dos raríssimos que pagavam pelo trabalho. Como precisava do dinheiro, ele engolia o constrangimento como podia.



3 de nov de 2011

hoaxes: a herança romântica e os contos do arabesco

Uma análise do hoax "científico" de Poe como herdeiro do romantismo de Coleridge, artigo interessante de Daniel Burgoyne, da Universidade da Colúmbia Britânica, disponível aqui.

Se as fraudes científicas e pseudocientíficas podem ser incluídas no campo da história da ciência, o interessante no caso dos hoaxes de Poe é que são contos, peças literárias, que emulam os hoaxes publicados na imprensa. É como se fosse um hoax de segundo grau, por assim dizer, um metahoax: um dos alvos principais da sátira poeana é a credulidade não só da opinião pública, mas da própria comunidade científica, que também lhe parecia fácil vítima de mistificações. E a mistificação é outro tema caro a Poe, como se pode ver em vários de seus "contos do arabesco", enfeixados na coletânea nunca publicada Tales of the Folio Club (TFC).

Programada inicialmente com onze contos, em 1833, essa coletânea foi se avolumando até atingir dezessete contos em 1936, mas não foi publicada. Afinal, em 1839 Poe acabou montando uma coletânea maior, Tales of the Grotesque and Arabesque (TGA), com 25 contos, incluindo os contos do arabesco previamente selecionados para a coletânea do Fólio Clube.

Como já alertei várias vezes, a coletânea TGA é inédita entre nós, a despeito do que alguns editores brasileiros possam colocar em suas fichas catalográficas e em seus prefácios apressados. Agora, enfocando mais especificamente os contos do arabesco, pode ser interessante comparar o conteúdo programado para TFC e o conteúdo efetivamente publicado em TGA. 

Tales of the Folio Club, todos concebidos como "contos do arabesco":
  • Raising the Wind; or Diddling Considered as One of the Exact Sciences
  • The Visionary
  • The Bargain Lost (Bon-Bon)
  • Siope
  • MS Found in a Bottle
  • Metzengerstein
  • A Decided Loss (Loss of Breath)
  • The Duc de l'Omelette
  • King Pest the First
  • Epimanes
  • Lion-izing
  • A Tale of Jerusalem
  • Berenice
  • Morella
  • Hans Pfall
  • Shadow
  • Von Jung, the Mystific (Mystification)
Vale a pena ler o também burlesco prólogo à planejada coletânea: The Folio Club.

A coletânea dos Tales of the Grotesque and Arabesque traz todos os contos do arabesco acima relacionados, exceto "Diddling". Os nove contos acrescentados em TGA são: 
  • William Wilson 
  • The Man That Was Used-Up 
  • The Fall of the House of Usher 
  • The Devil in the Belfry
  • Ligeia
  • The Signora Zenobia 
  • The Scythe of Time 
  • Why the Little Frenchman Wears His Hand in a Sling 
  • The Conversation of Eiros and Charmion 

Destes, alguns continuam na linha do burlesco. "Góticos" ou "germânicos" - como protesta Poe no prefácio de TGA, preferindo falar em "terror da alma" - podem-se considerar William Wilson, The Fall of the House of Usher, Ligeia e, em certa medida, Eiros and Charmion.

Na satirização dos hoaxes e do charlatanismo, sem dúvida os marcos principais são Hans Pfall e Von Jung, mas The Man That Was Used Up, Signora Zenobia e Scythe of  Time, também conhecido como "Assignation", a meu ver ilustram bem esse veio.

Voltando à tarefa de traduzir "Von Kempelen and His Discovery", conto de data bem posterior tanto a TFC quanto a TGA, o que tem me interessado são os seguintes pontos:
- a ligação com a linhagem romântica de Coleridge;
- o histórico de Poe na sátira ao charlatanismo;
- o humor de Poe satirizando a credulidade nos contos;
- o humor de Poe explorando a credulidade dos leitores;
- sua inserção dentro do fenômeno mais amplo dos hoaxes, como fraudes tanto dentro do mundo científico quanto na divulgação inocente ou conivente da imprensa;
- a tentativa de mimetizar literariamente o fenômeno dos hoaxes científicos, o que chamei de "metahoax" ou hoax de segundo grau: aqui, trechos da carta de Poe a um editor sobre o recurso à verossimilhança para "enganar o leitor".

a montagem da peça: elementos burlescos



As opiniões de Arago, naturalmente, merecem a maior consideração; mas ele não é infalível, de modo algum; e o que       diz sobre o bismuto, em seu relatório para a academia, deve ser tomado cum grano salis.
Aqui Poe brinca com a expressão cum grano salis: afinal, o bismuto, ao se cristalizar, forma sais.
The Literary Journal o menciona com segurança como um natural de Presburg..., mas tenho a satisfação de poder afirmar categoricamente, pois soube-o de sua própria boca, que ele nasceu em Utica, no estado de Nova York.
Falando de Von Kempelen: ele nasceu de fato em Pressburg (ou Bratislava, atual capital da Eslováquia), então famoso centro de magia. Ao transferir seu local de nascimento para Utica, a graça é que lá havia um manicômio muito conhecido.
[...] não soubesse eu por experiência própria a facilidade com que os cientistas caem vítimas de mistificações em assuntos fora de seus campos de pesquisa usuais, ficaria profundamente surpreso ao ver um químico tão eminente quanto o professor Draper discutindo com tanta gravidade as pretensões do sr. Kissam (ou será Quizzem?) à descoberta.   
Ao que consta, Poe resolveu nomear o personagem como Kissam expressamente para poder fazer o trocadilho com Quizzem (Embusteiro).

Comentários baseados na edição anotada de Mabbott. Veja aqui.

imagem: sais de bismuto
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2 de nov de 2011

fbn

Descobri ontem um recurso excelente na Fundação Biblioteca Nacional. Entrando no site aqui, na coluna à esquerda, em Serviços a Leitores, há a modalidade Atendimento a distância.


A coisa é tão sensacional que, no link de baixo, "Pesquisas Elaboradas da Divisão de Informação Documental", localizei a referência a uma tradução de The Tell-Tale Heart feita por Lygia Fagundes Telles!


E uma tradução do poema Annabel Lee feita por Manuel Bandeira, da qual também nunca tinha ouvido falar:


Além disso, o atendimento é rápido, gentil e eficiente. Ontem à noite preenchi o formulário disponível no site, pedindo algumas informações, e  hoje já tinha a resposta à minha consulta. Foi assim que consegui localizar o conteúdo da obra mais misteriosa
e difícil de encontrar, Contos de horror, em tradução de Luiza Lobo, pela Bruguera, 1970. Agradeço a Rosane Nunes, da DINF.
Fiquei encantada.


1 de nov de 2011

a montagem da peça: enquadramento verista



Todos os personagens, à exceção de Kissam, eram cientistas e estudiosos verídicos, bem conhecidos na época: Dominique François Arago, físico e astrônomo francês; Benjamin Silliman, professor de química na Universidade de Yale; o tenente Matthew Maury, criador de mapas de ventos e cartas de navegação; do barão Von Kempelen e de Maelzel já falamos bastante; Humphrey Davy, químico inglês; John William Draper, químico e acadêmico. Os periódicos, idem: American Journal of Science and Arts, Morning Courier and New York Enquirer, Home Journal, Deutsche Schnellpost, Literary World.

A graça começa quando o jornalista-narrador começa a discorrer sobre escritos e artigos publicados, estes sim totalmente fantasiosos: o Diário de Davy, o artigo sobre Kissam no Courier and Enquirer, o texto de Von Kempelen traduzido e publicado no Home Journal...

Era essa a plausibilidade que Poe se orgulhava de ter criado neste hoax, povoado de cientistas e celebridades, instituições e veículos de imprensa da época. Eis uns trechos da carta ao editor justamente do Literary World, a quem submeteu o conto para publicação (e foi recusado; aqui a íntegra):
Eu o entendo como uma espécie de "exercício", ou experiência, no estilo da plausibilidade ou verossimilhança. É claro que não há nele uma única palavra de verdade do começo ao fim. ... Sou da sincera opinião de que nove entre dez pessoas (mesmo entre as mais bem informadas) vão acreditar na brincadeira (quiz) ... Creio que [este] quiz é a primeira tentativa literária desse gênero de que se tem notícia. Na história de Mrs. Veal, podemos perceber de vez em quando um tom de pilhéria. Em Robinson Crusoé, a intenção era muito mais agradar ou empolgar do que enganar pela verossimilhança, único aspecto em que a narrativa de sir Ed. Seaward é mais habilidosa. Em meu "Caso de Valdemar" (no qual muitos acreditaram), eu não fazia a menor ideia de que alguém pudesse considerá-lo como algo além de um "artigo de revista" - mas aqui a força toda reside na verossimilhança. 
Menções: A Relation of the Apparition of Mrs. Veal, de Daniel Defoe; Sir Edw. Seaward's Narrative of His Shipwreck, de Jane Porter.
imagem: morning courier
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alfinetadas



Bem sei que "Silliman's Journal" é como chamavam antigamente o American Journal of Science (and Arts até 1880), criado, financiado e editado pelo professor Benjamin Silliman. Mas não consigo deixar de achar graça na conotação de parvo e papalvo. E duvido que, sapeca e amante de trocadilhos como era Poe, a escolha do periódico onde teria sido supostamente publicado o pretenso artigo de Arago fosse gratuita - ainda mais que, a certa altura, ele comenta a facilidade com que os cientistas caem em mistificações.

Em português não tem como, vai ficar Silliman's Journal mesmo; a referência terá de ir no posfácio anotado, talvez levantando também essa minha hipótese.

Na imagem, um número quase contemporâneo ao conto: respectivamente, 1846 e 1849.

o original

Segue o original, na edição 02 Mabbott, disponível aqui.

VON KEMPELEN AND HIS DISCOVERY.

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AFTER the very minute and elaborate paper by Arago, to say nothing of the summary in “Silliman’s Journal,” with the detailed statement just published by Lieutenant Maury, it will not be supposed, of course, that in offering a few hurried remarks in reference to Von Kempelen’s discovery, I have any design to look at the subject in a scientific point of view. My object is simply, in the first place, to say a few words of Von Kempelen himself (with whom, some years ago, I had the honor of a slight personal acquaintance,) since every thing which concerns him must necessarily, at this moment, be of interest; and, in the second place, to look in a general way, and speculatively, at the results of the discovery.
It may be as well, however, to premise the cursory observations which I have to offer, by denying, very decidedly, what seems to be a general impression (gleaned, as usual in a case of this kind, from the newspapers,) viz.: that this discovery, astounding as it unquestionably is, is unanticipated.
By reference to the “Diary of Sir Humphrey Davy,” (Cottle and Munroe, London, pp. 150,) it will be seen at pp. 53 and 82, that this illustrious chemist had not only conceived the idea now in question, but had actually made no inconsiderable progress,experimentally, in the very identical analysis now so triumphantly brought to an issue by Von Kempelen, who although he makes not the slightest allusion to it, is, without doubt (I say it unhesitatingly, and can prove it, if required,) indebted to the “Diary” for at least the first hint of his own undertaking. Although a ­[page 103:] little technical, I cannot refrain from appending two passages from the “Diary,” with one of Sir Humphrey’s equations. [As we have not the algebraic signs necessary, and as the “Diary” is to be found at the Athenæum Library, we omit here a small portion of Mr. Poe’s manuscript. — ED.]
The paragraph from the “Courier and Enquirer,” which is now going the rounds of the press, and which purports to claim the invention for a Mr. Kissam, of Brunswick, Maine, appears to me, I confess, a little apocryphal, for several reasons; although there is nothing either impossible or very improbable in the statement made. I need not go into details. My opinion of the paragraph is founded principally upon its manner. It does not look true. Persons who are narrating facts, are seldom so particular as Mr. Kissam seems to be, about day and date and precise location. Besides, if Mr. Kissam actually did come upon the discovery he says he did, at the period designated — nearly eight years ago — how happens it that he took no steps, on the instant, to reap the immense benefits which the merest bumpkin must have known would have resulted to him individually, if not to the world at large, from the discovery? It seems to me quite incredible that any man of common understanding, could have discovered what Mr. Kissam says he did, and yet have subsequently acted so like a baby — so like an owl — as Mr. Kissam admits that he did. By-the-way, who is Mr. Kissam? and is not the whole paragraph in the “Courier and Enquirer” a fabrication got up to “make a talk?” It must be confessed that it has an amazingly moon-hoaxy-air. Very little dependence is to be placed upon it, in my humble opinion; and if I were not well aware, from experience, how very easily men of science are mystified, on points out of their usual range of inquiry, I should be profoundly astonished at finding so eminent a chemist as Professor Draper, discussing Mr. Kissam’s (or is it Mr. Quizzem’s?) pretensions to the discovery, in so serious a tone.
But to return to the “Diary” of Sir Humphrey Davy. This pamphlet was not designed for the public eye, even upon the decease of the writer, as any person at all conversant with authorship may satisfy himself at once by the slightest inspection of the style. At page 13, for example, near the middle, we read, in ­[page 104:] reference to his researches about the protoxide of azote: “In less than half a minute the respiration being continued, diminished gradually and were succeeded by analogous to gentle pressure on all the muscles.” That the respiration was not “diminished,” is not only clear by the subsequent context, but by the use of the plural, “were.” The sentence, no doubt, was thus intended: “In less than half a minute, the respiration [being continued, these feelings] diminished gradually, and were succeeded by [a sensation] analogous to gentle pressure on all the muscles.” A hundred similar instances go to show that the MS. so inconsiderately published, was merely a rough note-book, meant only for the writer’s own eye; but an inspection of the pamphlet will convince almost any thinking person of the truth of my suggestion. The fact is, Sir Humphrey Davy was about the last man in the world to commit himself on scientific topics. Not only had he a more than ordinary dislike to quackery, but he was morbidly afraid of appearing empirical; so that, however fully he might have been convinced that he was on the right track in the matter now in question, he would never have spoken out, until he had every thing ready for the most practical demonstration. I verily believe that his last moments would have been rendered wretched, could he have suspected that his wishes in regard to burning this “Diary” (full of crude speculations) would have been unattended to; as, it seems, they were. I say “his wishes,” for that he meant to include this note-book among the miscellaneous papers directed “to be burnt,” I think there can be no manner of doubt. Whether it escaped the flames by good fortune or by bad, yet remains to be seen. That the passages quoted above, with the other similar ones referred to, gave Von Kempelen the hint, I do not in the slightest degree question; but I repeat, it yet remains to be seen whether this momentous discovery itself (momentous under any circumstances,) will be of service or disservice to mankind at large. That Von Kempelen and his immediate friends will reap a rich harvest, it would be folly to doubt for a moment. They will scarcely be so weak as not to “realize,” in time, by large purchases of houses and land, with other property ofintrinsic value.
In the brief account of Von Kempelen which appeared in the “Home Journal,” and has since been extensively copied, several[page 105:] misapprehensions of the German original seem to have been made by the translator, who professes to have taken the passage from a late number of the Presburg “Schnellpost.” “Viele “ has evidently been misconceived (as it often is,) and what the translator renders by “sorrows,” is probably “lieden,” which, in its true version, “sufferings,” would give a totally different complexion to the whole account; but, of course, much of this is merely guess, on my part.
Von Kempelen, however, is by no means “a misanthrope,” in appearance, at least, whatever he may be in fact. My acquaintance with him was casual altogether; and I am scarcely warranted in saying that I know him at all; but to have seen and conversed with a man of so prodigious a notoriety as he has attained, or will attain in a few days, is not a small matter, as times go.
“The Literary World” speaks of him, confidently, as a native of Presburg (misled, perhaps, by the account in the “Home Journal,”) but I am pleased in being able to state positively, since I have it from his own lips, that he was born in Utica, in the State of New York, although both his parents, I believe, are of Presburg descent. The family is connected, in some way, with Mäelzel, of Automaton-chess-player memory. [If we are not mistaken, the name of the inventor of the chess-player was either Kempelen, Von Kempelen, or something like it. — ED.] In person, he is short and stout, with large, fat, blue eyes, sandy hair and whiskers, a wide but pleasing mouth, fine teeth, and I think a Roman nose. There is some defect in one of his feet. His address is frank, and his whole manner noticeable for bonhommie. Altogether, he looks, speaks and acts as little like “a misanthrope” as any man I ever saw. We were fellow-sojouners for a week, about six years ago, at Earl’s Hotel, in Providence, Rhode Island; and I presume that I conversed with him, at various times, for some three or four hours altogether. His principal topics were those of the day; and nothing that fell from him led me to suspect his scientific attainments. He left the hotel before me, intending to go to New York, and thence to Bremen; it was in the latter city that his great discovery was first made public; or, rather, it was there that he was first suspected of having made it. This is about all that I personally know of the now immortal Von ­[page 106:] Kempelen; but I have thought that even these few details would have interest for the public.
There can be little question that most of the marvellous rumors afloat about this affair, are pure inventions, entitled to about as much credit as the story of Aladdin’s lamp; and yet, in a case of this kind, as in the case of the discoveries in California, it is clear that the truth may be stranger than fiction. The following anecdote, at least, is so well authenticated, that we may receive it implicitly.
Von Kempelen had never been even tolerably well off during his residence at Bremen; and often, it was well known, he had been put to extreme shifts in order to raise trifling sums. When the great excitement occurred about the forgery on the house of Gutsmuth & Co., suspicion was directed towards Von Kempelen, on account of his having purchased a considerable property in Gasperitch Lane, and his refusing, when questioned, to explain how he became possessed of the purchase money. He was at length arrested, but nothing decisive appearing against him, was in the end set at liberty. The police, however, kept a strict watch upon his movements, and thus discovered that he left home frequently, taking always the same road, and invariably giving his watchers the slip in the neighborhood of that labyrinth of narrow and crooked passages known by the flash-name of the “Dondergat.” Finally, by dint of great perseverance, they traced him to a garret in an old house of seven stories, in an alley called Flätzplatz; and, coming upon him suddenly, found him, as they imagined, in the midst of his counterfeiting operations. His agitation is represented as so excessive that the officers had not the slightest doubt of his guilt. After hand-cuffing him, they searched his room, or rather rooms; for it appears he occupied all the mausarde [[mansarde ]].
Opening into the garret where they caught him, was a closet, ten feet by eight, fitted up with some chemical apparatus, of which the object has not yet been ascertained. In one corner of the closet was a very small furnace, with a glowing fire in it, and on the fire a kind of duplicate crucible — two crucibles connected by a tube. One of these crucibles was nearly full of lead in a state of fusion, but not reaching up to the aperture of the tube, which was close to the brim. The other crucible had some liquid in it, ­[page 107:]which, as the officers entered, seemed to be furiously dissipating in vapor. They relate that, on finding himself taken, Von Kempelen seized the crucibles with both hands (which were encased in gloves that afterwards turned out to be asbestic), and threw the contents on the tiled floor. It was now that they hand-cuffed him; and, before proceeding to ransack the premises, they searched his person, but nothing unusual was found about him, excepting a paper parcel, in his coat pocket, containing what was afterwards ascertained to be a mixture of antimony and some unknown substance, in nearly, but not quite, equal proportions. All attempts at analyzing the unknown substance have, so far, failed, but that it will ultimately be analyzed, is not to be doubted.
Passing out of the closet with their prisoner, the officers went through a sort of ante-chamber, in which nothing material was found, to the chemist’s sleeping-room. They here rummaged some drawers and boxes, but discovered only a few papers, of no importance, and some good coin, silver and gold. At length, looking under the bed, they saw a large, common hair trunk, without hinges, hasp, or lock, and with the top lying carelessly across the bottom portion. Upon attempting to draw this trunk out from under the bed, they found that, with their united strength (there were three of them, all powerful men), they “could not stir it one inch.” Much astonished at this, one of them crawled under the bed, and looking into the trunk, said:
“No wonder we couldn”t move it — why, it’s full to the brim of old bits of brass!”
Putting his feet, now, against the wall so as to get a good purchase, and pushing with all his force, while his companions pulled with all theirs, the trunk, with much difficulty, was slid out from under the bed, and its contents examined. The supposed brass with which it was filled was all in small, smooth pieces, varying from the size of a pea to that of a dollar; but the pieces were irregular in shape, although more or less flat — looking, upon the whole, “very much as lead looks when thrown upon the ground in a molten state, and there suffered to grow cool.” Now, not one of these officers for a moment suspected this metal to be anything but brass. The idea of its being gold never entered their brains, of course; how could such a wild fancy have entered it? ­[page 108:] And their astonishment may be well conceived, when the next day it became known, all over Bremen, that the “lot of brass” which they had carted so contemptuously to the police office, without putting themselves to the trouble of pocketing the smallest scrap, was not only gold — real gold — but gold far finer than any employed in coinage — gold, in fact, absolutely pure, virgin, without the slightest appreciable alloy!
I need not go over the details of Von Kempelen’s confession (as far as it went) and release, for these are familiar to the public. That he has actually realized, in spirit and in effect, if not to the letter, the old chimera of the philosopher’s stone, no sane person is at liberty to doubt. The opinions of Arago are, of course, entitled to the greatest consideration; but he is by no means infallible; and what he says of bismuth, in his report to the academy, must be taken cum grano salis. The simple truth is, that up to this period allanalysis has failed; and until Von Kempelen chooses to let us have the key to his own published enigma, it is more than probable that the matter will remain, for years, in statu quo. All that as yet can fairly be said to be known, is, that “pure gold can be made at will, and very readily from lead, in connection with certain other substances, in kind and in proportions, unknown.”
Speculation, of course, is busy as to the immediate and ultimate results of this discovery — a discovery which few thinking persons will hesitate in referring to an increased interest in the matter of gold generally, by the late developments in California; and this reflection brings us inevitably to another — the exceeding inopportuneness of Von Kempelen’s analysis. If many were prevented from adventuring to California, by the mere apprehension that gold would so materially diminish in value, on account of its plentifulness in the mines there, as to render the speculation of going so far in search of it a doubtful one — what impression will be wrought now, upon the minds of those about to emigrate, and especially upon the minds of those actually in the mineral region, by the announcement of this astounding discovery of Von Kempelen? a discovery which declares, in so many words, that beyond its intrinsic worth for manufacturing purposes, (whatever that worth may be), gold now is, or at least soon will be (for it cannot be supposed that Von Kempelen can long retain his secret) of no ­[page 109:] greater value than lead, and of far inferior value to silver. It is indeed, exceedingly difficult to speculate prospectively upon the consequences of the discovery, but one thing may be positively maintained — that the announcement of the discovery six months ago, would have had material influence in regard to the settlement of California.
In Europe, as yet, the most noticeable results have been a rise of two hundred per cent. in the price of lead, and nearly twenty-five per cent. in that of silver.

mão na massa

Capa
A primeira versão de "Von Kempelen e sua descoberta" está pronta. Vou ter vários probleminhas, e terá de ser necessariamente uma tradução anotada.

Começa pela própria modalidade do conto: um hoax. Nem sei como se diz hoax em português: não temos muito essa tradição da fraude pseudocientífica como gênero literário, ou temos? Foi um grande sucesso lítero-jornalístico no século XIX, mas mesmo no século XX algumas ficaram bem famosas, extrapolando a mídia impressa: Orson Welles transmitindo na rádio a invasão dos marcianos (de Wells) e provocando pânico em massa nos EUA, ou, mais contemporânea, a chamada "fraude lunar" ou "falsa alunagem", como atualmente muitos consideram a chegada do homem à Lua.

Poe era um aficionado dessa modalidade, que lhe permitia também explorar bastante o lado humorístico da coisa: seus contos nessa linha, além de "Von Kempelen", são "Hans Phaall", "The Balloon-Hoax" e mesmo, embora um pouco mais sinistro, "The facts in the Case of M.Valdemar". Esses três existem em várias traduções entre nós. Além dos elementos de mistificação, pseudociência e humor, há a montagem do conto para obter o máximo de plausibilidade para enganar o leitor. Sob este aspecto, "Von Kempelen" é o mais bem acabado, como bem sabia Poe e frisou numa carta a um editor, a quem estava oferecendo o conto para publicação. Aliás, nesta mesma carta Poe usa também o termo quiz como sinônimo de hoax. Note-se que, até os anos 1870, quiz tinha o sentido primário de brincadeira, logro ou embuste por troça. No caso específico de "Von Kempelen e sua descoberta", é mesmo um quiz na acepção mais moderna do termo, como charada ou teste. Tem muitos elementos à clef, e o tradutor (no caso, eu) tem que ir procurando e juntando as pistas, até sentir que alcançou o sentido da peça como um todo. Por causa das várias referências, algumas um tanto abstrusas e outras que passam meio batido à leitura, é que vou ter de fazer uma tradução anotada (mas não com notas de rodapé: estou pensando numa espécie de curto posfácio de acompanhamento).

O texto em si não é difícil, de maneira nenhuma. Há apenas um neologismo, se não me engano, e em duas ou três passagens uma brusca alteração deliberada de registro. O problema são mesmo as referências. Pois o tradutor, diante de várias passagens, fica se indagando qual seria o ponto a que o autor quer chegar. E também há referências de fácil entendimento, mas de difícil transposição. Adiante darei alguns exemplos.

Por ora, mais uma boa fonte de consulta, Sins against Science, de Lynda Walsh, em esp. pp. 102-105, disponível aqui:



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